O Brasil está em greve. Por quê?

“Nunca antes na história deste país”...

... viu-se tamanha ebulição nas relações de trabalho.” 

Não se está aqui esquecendo, ou mesmo menosprezando a importância do passado de reivindicações históricas, como, por exemplo, o ocorrido no ABC Paulista na década de 70, época de afirmação do Sindicalismo Moderno.

A diferença, agora, é a amplitude geográfica (nacional) que os movimentos ganharam.

Hoje, a realidade é outra. Podemos afirmar, com tranquilidade, que as paralisações têm ocorrido no Brasil. Ou seja, diferentemente de tudo o que já se viu, temos hoje um país inteiro em greve.

Para reflexão temos exemplo recentes deste movimento: a greve dos bombeiros, no Rio de Janeiro; de professores, na Bahia; dos metalúrgicos da Volks, em Curitiba; dos condutores de trens, em São Paulo; e dos operários da obra de reforma do Mineirão, em Belo Horizonte, além de outras tantas.

Surgem, então, perguntas. As duas primeiras são:

1)      O que está acontecendo no Brasil? e
2)      Quais são os porquês destas greves?

A resposta imediata e, portanto, menos importante, seria dizer que o que tem motivado essa onda de paralisações é a busca de melhores condições e, em última análise, melhores salários.

Por outro lado, a resposta mediata – essa sim sob a qual devemos nos debruçar, se quisermos, de fato, entender o que está acontecendo no Brasil – nos remete a uma explosiva e sem precedentes onda de inúmeros ingredientes que compõem essa mistura de fatores sociais e econômicos, tais como: falta de mão-de-obra; Inflação alta;   Economia aquecida; imediatismo de expectativas das pessoas; velocidade e profusão de informações; sentimento generalizado de perdas, por não se conseguir tudo o que se poderia ter (e que instantaneamente sabe-se que outros têm; uniformização remuneratória nos setores (fabril, comércio e prestação de serviços); entre outras “novidades”.

Nunca (nunca mesmo) viveu-se, no país, a combinação simultânea e tão acentuada deste conjunto social de fatores econômicos.

Para se ter idéia, em 2010, ano seguinte à crise mundial, a taxa de Desemprego medida pelo IBGE, de 6,3%, foi a menor dos últimos oito anos. E, segundo analistas de mercado, a expectativa de Inflação para 2011 é de 6,22%, o que seria o maior índice, desde 2005.

Paralelamente, vemos uma série histórica de crescimento sustentável do Produto Interno Bruto (PIB) e pesados Investimentos em infra-estrutura e turismo.

O mundo mudou, as pessoas mudaram e as expectativas (de vida, de vontades, de prazeres, de ideais, de comunidades, de família, de afazeres e de lazeres) são completamente distintas daquelas vivenciadas há pouco – muito pouco - tempo atrás.

A terceira questão (que se desdobra em outras) e, talvez, mais importante pergunta é:

Como o meio empresarial tem reagido e se preparado para enfrentar (no bom sentido) essa nova realidade?

Existe gestão adequada das relações de trabalho?

Existe um canal verdadeiramente aberto e permanente de comunicação com seus empregados?

Como se dá a relação de credibilidade entre os atores sociais: empresa, empregados, sindicato e sociedade?

Precisamos fazer as perguntas certas. Elas devem estar enquadradas dentro desse novo cenário. E com elas se extrair as atitudes que compõem e fazem parte desse cipoal de mudanças que pululam todos os dias. Não podemos esperar por uma simples padronização de respostas, sob oRisco de obtermos soluções bem desagradáveis...

Aliás, neste sentido, lembremos da estória contada por Rubens Alves:“Viviam juntos o pai, a mãe, um filho de cinco anos e um avô, velhinho, vista curta, mãos trêmulas. Às refeições, por causa de suas mãos fracas e trêmulas, ele começou deixar cair peças de porcelana em que a comida era servida. A mãe ficou muito aborrecida com isso, porque ela gostava muito do seu jogo de porcelana. Assim, discretamente, disse ao marido: ‘Seu pai não está em condições de usar pratos de porcelana. Veja quantos ele já quebrou! Isso precisa parar...’O marido, triste com a condição do pai, mas, ao mesmo tempo, sem desejar contrariar a mulher, resolveu tomar uma providência que resolveria a situação. Foi a feira de artesanato e comprou uma gamela de madeira e talheres de bambu para substituir a porcelana. Na primeira refeição em que o avô comeu na gamela de madeira com garfo e colher de bambu, o netinho estranhou. O pai explicou, e o menino se calou. A partir desse dia, ele começou a manifestar interesse por artesanato que não tinha antes. Passava o dia tentando fazer um buraco no meio de uma peça de madeira com um martelo e um formão. O pai, entusiasmado com a revelação da vocação artística do filho, lhe perguntou: ‘O que você está fazendo, filhinho?’ O menino, sem tirar os olhos da madeira,  respondeu: ‘Estou fazendo uma gamela para quando você ficar velho...’”

Essas e outras perguntas, portanto, bem feitas (seguidas das atitudes que lhes são pertinentes e constituem a sua razão de ser) podem fazer a diferença entre ser expectador ou parte nestas paralisações. Lembremos daquele axioma latino “Esse est percipere aut percipi”, ou seja: “Ser é perceber e ser percebido”. O que não é percebido não existe, o que não for notado e distinguido perde a efetividade.

O assunto é muito complexo e não se encerra aqui, mas é certo que requer planejamento de curto, médio e longo prazo, através de um sistema equilibrado de gestão e contínuo processo de negociação.

 

Fonte: http://www.classecontabil.com.br/artigos/ver/2260